O curador Paulo Reis fala sobre a Paralela 2010

Paralela 2010 // A Contemplação do Mundo

Nada de mau se perdeu / nada de bom foi em vão / uma luz ilumina tudo / mas deve haver mais. (    Arseni Tarkovski)
As alterações políticas, sociais e científicas do mundo contemporâneo produzem atualizações ou atualização relacional naquilo que denominamos cultura. Estando em um ritmo acelerado ante as novas tecnologias de informação e de comunicação, a sociedade passa por um choque contínuo de aprendizado. A era atual, remotamente denominada neobarroca por alguns autores, é muito mais neorrenascentista, dada a sua capacidade de expansão dos novos modelos de operação e de consciência. A partir de conceitos de hibridização, de miscigenação, de convergências e confluências de ideias acessíveis a todos – a tal biblioteca aberta, nas palavras de Gilles Deleuze –, vivemos em um mundo constantemente atualizado. Hegel já previra nos termos do zeitgeist, o espírito do tempo cujo motor será sempre a história. O tempo não para, todavia perdeu a sua importância na emergência em que vivemos. A cibercultura preconizada por Pierre Lévy pensa a engenharia do laço social para construir árvores do conhecimento. Estas árvores, abertas e democraticamente acessíveis a todos graças às tecnologias existentes, é a sua mais-valia.

Um dos autores fulcrais para a compreensão do século XX – bem como deste que está começando –, Michel Maffesoli indica-nos a chave para a passagem do portal do nosso tempo. O título do seu profético livro, A contemplação do mundo, foi tomado como farol para a discussão nesta mostra. Conceitos como cultura, tempo, memória, lugar, história e acontecimentos numa esfera global servem-nos de fios condutores para percorrer esse labirinto de imagens e poéticas. Sob a égide maffesoliana de que o sonho e o pensamento estão estreitamente ligados, sobretudo nos momentos em que as sociedades sonham-se a si mesmas, tomemos a ideia de contemplar o mundo através destas obras. Contudo não se trata da defesa de uma tese sociológica, ilustrada por obras de arte, mas do reconhecimento da capacidade dos artistas de refletirem sobre temas comuns, problematizando-os e sobretudo criando uma representação, que é o papel da arte. A cientista social Susan Buck-Morss, no seu livro Thinking Past Terror,[1] conclui que o 11 de Setembro modificou de forma irrevogável o contexto da fala dos intelectuais. Para ela, somos testemunhas das mutações atuais, advertindo que se os intelectuais não tiverem capacidade de tomar parte no que acontece agora, ao separar o discurso acadêmico da vida política, corre-se o risco de estes serem excluídos do pensamento global. Pensar e escrever para uma esfera global não é tarefa fácil nestes dias, complementa. 

Michel Maffesoli propõe que “o sonho e o pensamento estão estreitamente ligados, sobretudo nos momentos em que as sociedades sonham-se a si mesmas. É importante, pois, saber acompanhar esses sonhos, tanto mais que sua negação é, em geral, uma constante de todas as ditaduras. Estas não possuem mais a face brutal que foi a sua, durante toda a modernidade. Elas tomam o aspecto aprazível e bastante asséptico da felicidade tarifada ao menor preço. A ditadura contemporânea não consiste mais no fato, salvo exceções notáveis, de indivíduos sanguinários e cruéis, ela é anônima, doce, dissimulada. Ela é, sobretudo, não consciente do que é, ou do que faz, e se empenha, em total boa-fé, em promover o sacrossanto princípio de realidade utilitarista. E desse modo extirpa, de fato, a faculdade onírica. Neste sentido, ela não exprime senão uma constante da história humana: os poderes dormem em paz, enquanto ninguém pode mais, não sabe mais ou não mais ousa sonhar”.

O espaço do sonho, do devaneio, do invisível é este por excelência o espaço da arte. É nele que reside o ato da criação, ele é a zona de embate onde o artista sonha-se a si mesmo, através da comunhão que somente a arte pode promover. Esta zona de imaginação – um quarto, uma sala, uma nave, uma paisagem – é a centelha que nos ilumina na sua imanente existência. As obras reunidas neste módulo, a utopia do lugar, dos artistas Daniel Acosta, Carla Zaccagnini, Regina Parra, Lays Mirrha, Eduardo Verderame, Sandra Cinto, Marcos Chaves, Pedro Motta, Thiago Rocha Pitta, Márcia Xavier, Detanico & Lain, Dias & Riedweg, Lucas Bambozzi, Débora Bolsoni, Laura Vinci e Ogrivo revelam-se espaços de utopias: arquitetônicas, paisagísticas, sonoras ou cotidianas. Espaço mnemônico, para penetrá-lo é preciso estar sob a centelha da arte de que “nada de mau se perdeu / nada de bom foi em vão / uma luz ilumina tudo / mas deve haver mais”, poema de Arseni Tarkovski que escaramuça as inquietudes na alma do artista. Aqui começa a aventura pelo espaço do sonho, da paisagem onírica, real ou inventada, no espaço do devaneio ou do desejo de transformar a realidade.

“Há um ‘transe do imaginário’, do qual o barroco nos ofereceu uma forma em maiúscula, e que renasce hoje em dia com a barroquização do mundo. O próprio desse transe […] é que ele favorece a explosão de si mesmo. Por meio da imagem, eu participo desse pequeno outro que é um objeto, um guru, uma estrela, uma pintura, uma música, um ambiente, etc., e por isso mesmo cria-se esse Outro, que é a sociedade. Participação mágica, que se acreditava reservada aos primitivos, e que volta a galope com o reencantamento do mundo.” E é com este reencantamento que lidam as obras de Rodrigo Matheus, Flávia Metzler, Marcelo Solá, Marcelo Moscheta, Cabelo e Chelpa Ferro: com a capacidade de rever o passado, trazendo-o para o presente como imagens ícones da nossa civilização. Reverência solene aos mestres, creditando suas experiências pioneiras e mágicas, e dizendo-nos que “a socialidade pós-moderna é, por várias razões, transfigurada pelas imagens. Atendo-se à definição clássica, a transfiguração é a passagem de uma figura para outra. Além disso, ela é, de uma certa maneira, mesmo que mínima, próxima da possessão”.   

 “É, pois, prestando atenção aos ‘sinais dos tempos’, sabendo interpretar todos os eventos pontuais, um tanto caóticos, com forte carga emocional, que constituem a vida de todos os dias, que se pode apreciar o novo estilo de vida, que sub-repticiamente, capilariza-se no corpo social. É desse modo que renasce o sentimento comum (outra maneira de dizer o mito), sentimento que tende a ser expresso de maneira mais ou menos perversa e que não tem, principalmente, nada de racional ou, pelo menos, é difícil de integrar ao esquema racionalista que prevaleceu durante toda a modernidade. Em suma, pode-se dizer que a imagem, o simbólico, o imaginário, a imaginação voltam à cena, sendo levados a representar um papel de primeiro plano”, referências à radicalidade da modernidade, sobretudo dos primórdios das experiências plásticas inovadoras, comentadas pelos artistas Fernanda Gomes, Edgard de Souza, Iran do Espírito Santo, Felipe Cohen, João Loureiro, Carlos Bevilacqua, José Rufino, Alexandre da Cunha, Nicolás Robbio, Laura Belém, Jarbas Lopes, Reginaldo Pereira, Tonico Lemos Auad e Valdirlei Dias Nunes.

“É frequente considerar que o ‘estilo é o homem’ e essa ideia recorrente serve, em principio, para acantoná-lo na esfera do privado. É, nesse sentido, um excedente, um suplemento d’alma reservado à literatura ou às outras grandes obras da cultura, pintura, música, escultura, etc. Em todos os casos, refere-se apenas ao lazer, ao domingo da vida, sem muita implicação no resto da existência, submetida a um princípio de realidade bastante mais sério. Nessa perspectiva, o estilo, tal como a dançarina que o burguês ‘se pagava’ para seu deleite, é facilmente revogável, especialmente em tempos de crise. É certo que houve nos últimos anos um outro emprego da noção, em particular na expressão ‘estilo de vida’, mas ela foi utilizada essencialmente com uma preocupação mercantil, pois se tratava com isso de delimitar ‘populações-alvo’, visando ajustar a produção e, sem dúvida, o consumo às suas demandas, seus desejos, supostos ou reais”, como comentam as obras de Marcelo Amorim, Bruno Dunley, Rodrigo Bivar, Gustavo Rezende e Rogério Degaki.

“Qual pode ser a característica essencial do estilo originado da transmutação dos valores que se operou há alguns decênios e que está em vias de ser concluída, neste fim de século? Assim […], de uma forma mais ou menos precisa, é uma maneira de ser estética que tende a prevalecer em nossas sociedades. No entanto, esclarecemos que a estética em questão não é, de nenhuma forma, aquela que se pode situar no domínio das belas-artes: ela as engloba, mas também se estende ao conjunto da vida social. A vida, como obra de arte de algum tipo, ou ainda a estética, como maneira de sentir e de experimentar em comum. […] O que explica por que a estética não mais obedece, forçosamente, aos diversos critérios do bom gosto, elaborados durante o burguesismo, e que se afirme essencialmente como um vetor de socialidade, uma maneira de desfrutar junto de um presente eterno, o que é explicado pela expressão, um pouco paradoxal, de ‘materialismo místico’. Há o hedonismo do corpo, dos objetos, das imagens e do espaço, com tudo o que isso pode ter de concreto, mas isso se transmuda em misticismo, isto é, isso é partilhado, favorecendo assim uma união misteriosa ou, mais próximo de sua etimologia, uma comunhão”, conseguida na observação das pinturas fulgurantes de Adriana Varejão, Mariana Palma, Osgemeos, Rodolfo Parigi e Tiago Tebet, ou nas translúcidas de Niura Belavinha e, mais ainda, nas esculturas hedonistas e irônicas de Erica Verzutti e Marepe.

“Progressivamente, o imaginário, que a modernidade poderia considerar como sendo da ordem do supérfluo ou da frivolidade, tende a encontrar um lugar de escolha na vida social. Pode-se formular a hipótese de que há corpo social, assim como há ser humano. Este último, com efeito, quando teve um grande dispêndio puramente cerebral ou físico, precisa ‘relaxar’ e dedica-se, mais ou menos inconscientemente, a reencontrar seu equilíbrio, pondo em ação suas potencialidades de fantasia, suas faculdades oníricas e lúdicas. É o papel compensador que podem adquirir o tempo livre, os lazeres ou outras formas de ‘férias’ do espírito e do corpo. […] Levando um pouco adiante a análise, é possível indagar se, depois de terem sido submetidas às duras leis do produtivismo, depois de terem sido dominadas pelo princípio de realidade do ‘todo econômico’, não estariam as sociedades redescobrindo os encantos da distensão, ou, pelo menos, relativização do ativismo que marcara os dois séculos passados.” Assim, as obras de Wagner Malta Tavares, Geórgia Kyriakakis, Ding Musa, Mariana Manhães, Marcellvs L. e Raul Mourão, cujos valores cinéticos e físicos são mais aparentes e imediatos, colocam em xeque o modus de percepção da realidade em desequilíbrio. 

“Ao ‘gênio’ é preciso devolver sua acepção mais ampla: por exemplo, o gênio de um lugar ou o gênio de um povo. Eis algo que é bem difícil depois de mais três séculos de modernidade, na qual prevaleceu a ideologia individualista. Porém, se nos dedicamos a pensar no presente, a pensar o presente, se desejamos compreender as mudanças de importância que se esboçam hoje em dia, convém devolver ao gênio coletivo suas cartas de nobreza. É a esse preço que os diferentes aspectos da vida social encontrarão não o sentido, naquilo que ele tem de unívoco, de intangível, de universal – progresso, evolucionismo histórico, estado de direito nacional ou internacional –, mas suas diversas significações: significações vividas com outros e que são causas e efeitos de uma nova maneira de estar-junto”, desta forma percebemos o forte apelo ao simbólico nas obras de Mauro Piva, Rosana Palazyan, Lina Kim, Chiara Banfi, Brígida Baltar e Márcia de Moraes. 

“A transfiguração da sociedade pós-moderna acha sua completa realização na vida quotidiana. […] De fato, ao lado do comércio das ideias (ideologia), há o comércio dos bens (economia) ou o comércio dos corpos (sexualidade). Cada um deles gera objetos, favorece sua troca, sua circulação, contribuindo, desse modo, para a animação global da vida social. Porém este comércio multiforme não pode ser posto em relação, esse espírito que vem aos objetos e pelos objetos, tudo isso não pode ter lugar senão porque ele possui ‘informação’ por imagens.” O tempo do homem, os materiais que compõem sua vida, o seu tempo como hora de trabalho, a sua inteligência como modelo de produção, a distribuição das redes de circulação social e de mercadorias, o corpo como mercadoria, as vicissitudes e confrangimentos sociais e econômicos, enfim o valor da vida quotidiana, algo não mensurável, mas comentado através das obras de Felipe Cama, Héctor Zamora, Paulo Climachauska, André Komatsu, Renata Lucas, Lenora de Barros, Eder Santos, Marina Rheingantz e Rafael Carneiro, Felipe Barbosa e Cao Guimarães.

“Pensar desinteressadamente é, afinal, uma boa garantia contra o dogmatismo, sem que isso provoque uma abdicação do espírito. Muito pelo contrário. Nos períodos de turbulência, é melhor abordar os fenômenos sociais com o espírito livre de todos os preconceitos, ou pelo menos o mais isento possível de ideias preconcebidas. Pois trata-se de uma metamorfose contínua que se opera sob nossos olhos. Já falei da ‘transfiguração’ do político. Mas, ao levar mais longe a análise, pode-se observar que é o conjunto da sociedade que foi deteriorado pela passagem do tempo. Daí a espécie de palingenesia que isso induz. Quero dizer que, por uma espécie de processo cíclico, é a partir do caos que se opera uma recriação total. Neste caso, a saturação dos valores da modernidade tende a dar lugar a valores alternativos, de contornos ainda imprecisos, mas cuja eficácia não se pode negar”, quando colocada com o valor supremo da liberdade, eis a proposta de Rosana Ricalde, Vânia Mignone, Tiago Carneiro da Cunha, Felippe Segall, Alex Cerveny, Patricia Osses, Fernanda Chieco, Rafael Assef e Milton Marques.

Arte é espaço de reflexão, tensão, antagonismo, denúncia, revolução, pois, como propôs Joseph Beuys, “la rivoluzione siamo noi”, demarcando que o lugar do verdadeiro artista é o do guerrilheiro cultural. É da proximidade da arte que advém uma experiência pulsante, viva, estado de permanente deslocamento, como lugar de passagem. A experiência in site / no site nas correntes das artes minimalistas confirma que uma obra de arte não necessita somente da tríade ateliê/galeria/museu para existir. Hoje pode-se apresentar uma obra de arte em qualquer lugar, um espaço privado ou público, a arte já não depende do espaço para legitimar-se, seu espaço agora é o mundo. Pois, como disse Arthur C. Danto, “se mudarmos a consciência, a realidade pode mudar-se de dentro. Implicar a consciência é, por último, a maneira de eliminar a distância entre arte e a vida”.[2] 

Paulo Reis

São Paulo, setembro 2010


[1] “September 11 has transformed irrevocably the context in which we as intellectuals speak. The acts of terror on that day were no invasion from the outside by a barbaric evil ‘other’ but were, rather, produced fully within a coeval and common world. We are witnessing the mutation of a new, global body-politic, and if we intellectuals are to have any potency as part of its thinking organ, it will be in discourses that refuse to separate academic life from political life, and that inform not just national opinion, but a global public debate. To think and write for a global public sphere is not an easy task.” Susan Buck-Morss, Thinking Past Terror: Islamism and Critical Theory on the Left. Londres: Verso, 2003.

[2] Arthur C. Danto, The Gap between Art and Life. Londres: ICO, 2007.

Todas as citações deste texto foram extraídas do livro A contemplação do mundo, de Michel Maffesoli, tradução de Francisco Franke Settineri. Porto Alegre: Artes e Ofícios Edições, 1995.

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Sobre paralela10

Em sua 5ª edição, a mostra reúne 82 artistas no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, entre 22 de setembro a 28 de novembro de 2010, sob a curadoria de Paulo Reis
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3 respostas para O curador Paulo Reis fala sobre a Paralela 2010

  1. Sofia Carvalhosa disse:

    Acho que o Liceu de Artes e Ofícios será um bom palco para as indagações do Paulo Reis. Espero com curiosidade as obras dos artistas. Sofia

  2. Marcelo disse:

    Acho bacana td iniciativa de arte.
    Mas esta mostra parce o mercado de música pop do brasil sempre as mesma figuras com suas reflexões q terminam na Vila Madalena dividindo a conta do bar ou restaurante .

  3. Poucas mostras conseguiram concretizar suas premissas curatoriais como esta, orquestrada por Paulo Reis. Seja pelo poder das obras, de imensa qualidade, seja pela fluidez, clareza e inteligência expostas pelo curador em suas escolhas e conexões, que promovem uma imersão na produção de arte contemporânea brasileira, no mais alto nível de exigência e atração. Desde já uma Paralela histórica. Parabéns !
    Alexandre Murucci

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